menininha difícil

lembro dela
como um olhar
calmamente
embriagado
de interesse
mistério
e melancolia

lembro dela
como quem se perde
e passa por ruas
que já passou
à noite
mas nunca
de dia

lembro dela
como uma música
cujo refrão
eu canto
errado
e fica melhor
do meu
jeito

lembro dela
como uma praia
do litoral sul
que não visito
desde a minha
infância
mas que
ainda
ouço
o batuque
do vento

transmutação

percebo
o placebo
desafetos
dos dejetos
do meu ego
não me cego
recebo o recado
fico incomodado
concebo com avidez
ruborizo a minha tez
e posso partir liberto
do pesadelo desperto
no lugar mais desejado
onde de fato é meu fado

rega e poda

eu rego
uma planta de ódio
todos os dias
para lembrar
do motivo
da descoloração
das minhas
cicatrizes

dizem
que é preciso
dois anos
até passar
um dia
sem pensar
em fumar

mas
eu tenho dificuldade
em passar
uma hora
sem pensar
em você

o que me aproxima
não é o amor
é a minha planta
de ódio
que não vou
mais regar

vou deixar
à luz
necromante
do sol
para secar
e morrer