tempero do tempo

por um tempo eu só quis
escrever coisas positivas
dissimular a natureza
putrefata
das relações
findadas

por um tempo eu só tinha
a esperança em um calor
menos congelante
do que
esse seu amor
culpado

por um tempo quis esquecer
do suicídio descarrilhado
que o universo
provocava
com a lembrança
da sua nudez

por um tempo
não soube
dizer
adeus
ao salgado
das suas lágrimas
que me recordavam
a existência de alguma
humanidade
no seu olhar

last kiss

A última vez que a vi foi em um dia frio de garoa na Galeria do Rock em São Paulo. Ela havia insistido por e-mail para me ver pois estava com saudades do tamanho de um país comunista à beira do colapso, segundo suas próprias palavras controversas que nunca entendi muito bem.

Seu humor era peculiar e imersivo. Ela gostava de rir alto das próprias sacadas e quem convivia com ela era açoitado com uma quantidade inequívoca de piadas internas. Ela era divertida, mesmo que seu conteúdo intelectual fosse polêmico e sua acidez debandasse com os mais conservadores ouvintes.

Namoramos no meio da adolescência. Ela com 14 anos e eu com 16. Apesar de ser mais velho, era eu que aprendia com ela as coisas sobre o mundo. Ela com suas tatuagens bem elaboradas (ainda tímidas naquela época) e seus piercings pontuais e eu ainda descobrindo o que era viver longe do rebanho.

Tinha sido um namoro curto, já que eu, um imberbe arrogante, não conseguia dominar meus sentimentos por ela. E ela só queria viver, mas cada crise de ciúmes e desapego que eu tinha a irritava tal como um programa dominical.

Terminamos e continuamos como amigos. Eu simulava não ter mais apego por ela e ela se divertia com outras pessoas, meninos e meninas, enquanto eu fazia companhia e açoitava meus desejos em um universo paralelo. Parecendo estar tudo bem, mas com pregos nas costas.

Nos afastamos. Ela foi morar por um tempo no exterior e nos comunicamos muito pouco desde então. 15 anos afastados. Até aquela manhã quando recebi seu e-mail. Pediu urgência e disse que precisava muito me ver.

Reconheci ela facilmente. Seu cabelo sempre estava pintado de cores extravagantes e sua pele extremamente alva gerava sempre um contraste marcante. Abracei ela com a força de quem torna o momento infinito.

E ela chorou.

Fizemos algumas piadas em relação a minha aparência. Recordamos alguns momentos com o sabor de manteiga da nostalgia. E precisei me despedir. Estava com pressa. Havia saído sem avisar a minha namorada atual, pois o contato tinha sido ainda naquela manhã e a brevidade do tempo não permitiu qualquer tipo de movimento esclarecedor sobre o contato.

Ela me olhou profundamente e tentou me dar um selinho de despedida. Eu virei o rosto e disse que estava namorando. Abracei seu corpo para tentar dissuadir o clima estranho da negação. Virei as costas e fui embora.

Esta semana recebi uma ligação de sua irmã dizendo que ela faleceu. Estava há alguns meses com o diagnóstico de doença autoimune em uma fase irreversível.

Chorei.

Nós dizíamos que não gostávamos de velórios e que era um grande desperdício emocional ir assistir a defuntos serem enterrados ou cremados. Não havia propósito. Não havia honra

Mas eu fui em seu funeral.

Encostei meu indicador e meu dedo médio em meu beiço e depois nos lábios dela.

Pedi perdão.

eigengrau doppelganger

fecho os olhos
busco o preto absoluto
mas só existe
eigengrau

fecho os olhos
admiro o meu luto
é necessário
fulgural

não são raios
artificiais
benflogin

é energia
potencial
que restou
em mim

tanto que idealizo
que torno minha
sua identidade
manipulo
anulando
a fidedigna
personalidade

é verso
ao invés
de verdade
é pijama
de terno
vaidade

me despeço
deste cinza
intrínseco
das minhas
criações
platônicas
desses amores
superestimados
desses sonhos
putrefatos

adeus
doppelganger
do meu
desejo
seu lirismo
afeta
minha verdadeira
vontade
gozar com você
agora é
insanidade