diálogos niilistas

Ele: Eu te amo!
Ela: Não. Você ama o que você acha que eu sou. Você ama a sua idealização de mim.
Ele: Eu te desejo!
Ela: Sim. Você ama o seu desejo.
Ele: Você nunca relaxa?
Ela: Com vodka.
Ele: Mas a angústia só é amortecida. Fica pior depois, não?
Ela: Foco na ressaca.
Ele: Antes você se preocupava comigo. Hoje você se preocupa com os pronomes do caso reto e se eu estou enganando você.
Ela: Prioridades linguísticas.
Ele: Você não me beija mais efusivamente.
Ela: Novamente: prioridades linguísticas.
Ele: Será que algum dia vamos nos ver novamente?
Ela: …
Ele: Sim ou não?
Ela: …
Ele: Adoro teu cinismo. Até parece que você tem paz de espírito.
Ela: Vai começar?
Ele: Não. Deixa quieto. Passar bem.
Ela: Não vá embora! Eu te amo!
Ele: …

tempero do tempo

por um tempo eu só quis
escrever coisas positivas
dissimular a natureza
putrefata
das relações
findadas

por um tempo eu só tinha
a esperança em um calor
menos congelante
do que
esse seu amor
culpado

por um tempo quis esquecer
do suicídio descarrilhado
que o universo
provocava
com a lembrança
da sua nudez

por um tempo
não soube
dizer
adeus
ao salgado
das suas lágrimas
que me recordavam
a existência de alguma
humanidade
no seu olhar

last kiss

A última vez que a vi foi em um dia frio de garoa na Galeria do Rock em São Paulo. Ela havia insistido por e-mail para me ver pois estava com saudades do tamanho de um país comunista à beira do colapso, segundo suas próprias palavras controversas que nunca entendi muito bem.

Seu humor era peculiar e imersivo. Ela gostava de rir alto das próprias sacadas e quem convivia com ela era açoitado com uma quantidade inequívoca de piadas internas. Ela era divertida, mesmo que seu conteúdo intelectual fosse polêmico e sua acidez debandasse com os mais conservadores ouvintes.

Namoramos no meio da adolescência. Ela com 14 anos e eu com 16. Apesar de ser mais velho, era eu que aprendia com ela as coisas sobre o mundo. Ela com suas tatuagens bem elaboradas (ainda tímidas naquela época) e seus piercings pontuais e eu ainda descobrindo o que era viver longe do rebanho.

Tinha sido um namoro curto, já que eu, um imberbe arrogante, não conseguia dominar meus sentimentos por ela. E ela só queria viver, mas cada crise de ciúmes e desapego que eu tinha a irritava tal como um programa dominical.

Terminamos e continuamos como amigos. Eu simulava não ter mais apego por ela e ela se divertia com outras pessoas, meninos e meninas, enquanto eu fazia companhia e açoitava meus desejos em um universo paralelo. Parecendo estar tudo bem, mas com pregos nas costas.

Nos afastamos. Ela foi morar por um tempo no exterior e nos comunicamos muito pouco desde então. 15 anos afastados. Até aquela manhã quando recebi seu e-mail. Pediu urgência e disse que precisava muito me ver.

Reconheci ela facilmente. Seu cabelo sempre estava pintado de cores extravagantes e sua pele extremamente alva gerava sempre um contraste marcante. Abracei ela com a força de quem torna o momento infinito.

E ela chorou.

Fizemos algumas piadas em relação a minha aparência. Recordamos alguns momentos com o sabor de manteiga da nostalgia. E precisei me despedir. Estava com pressa. Havia saído sem avisar a minha namorada atual, pois o contato tinha sido ainda naquela manhã e a brevidade do tempo não permitiu qualquer tipo de movimento esclarecedor sobre o contato.

Ela me olhou profundamente e tentou me dar um selinho de despedida. Eu virei o rosto e disse que estava namorando. Abracei seu corpo para tentar dissuadir o clima estranho da negação. Virei as costas e fui embora.

Esta semana recebi uma ligação de sua irmã dizendo que ela faleceu. Estava há alguns meses com o diagnóstico de doença autoimune em uma fase irreversível.

Chorei.

Nós dizíamos que não gostávamos de velórios e que era um grande desperdício emocional ir assistir a defuntos serem enterrados ou cremados. Não havia propósito. Não havia honra

Mas eu fui em seu funeral.

Encostei meu indicador e meu dedo médio em meu beiço e depois nos lábios dela.

Pedi perdão.