a ciência da covardia

olho
por alguns minutos
covarde
e
aflitamente
seu último
parágrafo

pergunto
se você
chegou
a me amar
fora
dos versos
e versículos
fora
dos termos
satânicos
e
bíblicos
fora
dos
argumentos
empíricos
da sua
personalidade
tóxica
suicida

eu te criei
como uma
incógnita
em
mim

e quando
escoem
as
interrogações
e as
falácias
já estou
só
e
sem
perdão
que fale
a sua língua
taciturna

amnésia

esqueça-me
dos teus livros
rabiscados
das tuas composições
encomendadas
das tuas xícaras
de café
silenciosas
da tua literatura
minha
senhora

esqueça-me
dos teus poemas
mal versados
da tua prosa
pseudorimada
da tua libido
incontinente
do teu ódio
aparente
dos teus sentidos
incoerentes
da tua fé
ratificadora
do teu choro
de gangorra
do teu sorriso
onde quer
que eu
morra

letalidade

letal
como
o ritmo
sedutor
de quem
te adula
com a isca
temperada
do elogio

por método
de sobrevivência
fiz pouco
de ti
em
mim

antes
vazio
do que
cheio
de
gás sarin

o coração
agora
hipertrofiado
age
com profunda
indiferença

antes
vazio
do que
cheio
de
fentanil

teu
orgulho
é poder
dizer
que enfim
ele
desistiu

diálogos lacanianos

Ela: O que você pensa de mim?
Ele: Xi! Tá buscando aprovação?
Ela: Você acha que eu sou uma pessoa boa?
Ele: Não. Ninguém é.
Ela: Você acha que eu sou uma pessoa ruim?
Ele: Certamente. Todos são.
Ela: E você? É uma pessoa ruim?
Ele: Segundo alguns, o pior. Provavelmente também para você daqui algum tempo.
Ela: E tem algo de errado comigo?
Ele: Você se apaixona por quem se comporta como sua mãe com você.
Ela: Como assim?
Ele: Amor condicionado. Atenção, agressão e indiferença.
Ela: E você?
Ele: Eu me apaixono por você.
Ela: Por algum motivo especial?
Ele: Porque eu respondo as perguntas que você gosta de indagar.
Ela: E quanto tempo isso irá durar?
Ele: Até quando eu te der atenção, agressão e indiferença.
Ela: Então você está no controle?
Ele: Enquanto outro não te der algo mais intenso e abusivo.
Ela: Você é um abusador?
Ele: Todos somos. A natureza das relações é o gozo egoísta. Não existe altruísmo nesta história.
Ela: E o meu prazer é o abuso?
Ele: Liga não. O meu também é.
Ela: Eu abuso de você?
Ele: Sim. Por exemplo, eu detesto responder estas perguntas, mas eu me sujeito a isso porque é a maneira de te manter por perto.
Ela: E se eu parar de te indagar?
Ele: Você vai procurar outra pessoa pra fazer isso.
Ela: E se você parar de responder?
Ele: Eu já faço isso. A minha atenção só tem valor pra você se eu intercalo com momentos de agressão e indiferença.
Ela: Você faz isso por querer?
Ele: Assim como você, eu só quero gozar.

pseudoriso

você maltrata
sua criança
interna
quando
se
orgulha
da
própria
indiferença

eu ainda
tento
arrancar
o band-aid
que
cobre
o escárnio
de não lembrar
os traços
mórbidos
da sua
face

e está
tudo
bem
quando
a dor
de mentir
é menor
que a dor
de não
dormir
e seu
riso
tem
o som
do
matadouro
e a cor
do
açoite

e está
tudo
bem
quando
você
dissimula
um caminho
leve
e
pacífico
enquanto
mastiga
as lâminas
daquilo
que fugiu
da sua mania
de controle
embebidas
no suco
ácido
do fracasso
em ser
feliz