XV – o diabo

ele sabe
o que eu não sei
ele seduz
com o que
nem me é
consciente
desejo

ele tem
a cópia original
e autografada
do meu livro
das sombras

ele é
a ejaculação
perversa
do meu
inconsciente

é ineficaz
tentar controlar
sua existência
se é justo ele
que inflama
minha mania
de controle

melhor
que me perder
no esforço
inútil
da dominação
é enfim
assumir
as possibilidades
de negociatas
e barganhas

triste
mas sacra
verdade
meu diabo
sempre foi
eu

XII – o pendurado

após
fazer a forca
com teu nome
tive medo
perdi a
fome

mas meus erros
só são erros
se ainda vivo
com a cabeça
na guilhotina
mesmo quando todos
já foram embora

nosso lugar
está reservado
em um canto
lúgubre
da história

sabedoria
é estar
em uma condição
adversa
e saber esperar
não agir
não piorar
não substituir

se o mundo
está ao contrário
perdido
adversário
meu caminho
se revela
de ponta-cabeça

não tenho
pressa
leve o tempo
que for
para que eu
desça
e
aconteça

I – o mago

ineficazes
os rezos
na marginal

o controle
sempre
é só parcial

pareço
estar
no meu
domínio

minha mente
deduz
as estatísticas

pareço
entender
os domingos

mas as segundas
de sangue
e suásticas

o malabarismo
com as palavras
dissimula
mas não
inocula
a cura
desse
mal-estar

IX – o eremita

com parcimônia
aguardar
a onda perfeita
no mar misterioso
da Ilha dos Lobos

silenciar
o sublime
canto
do presente
retrógrado

calar
com
palavras
sem
gritaria
sem
som

respeite
a versão
incrédula
da minha
partida

não sigo
nenhum caminho
o caminho
agora
é que me
segue