como pedra no Arpoador

você não se importa
se eu tenho prazer
e me encontro
jogando
feitiços
dichavados
no
Arpoador

você quer
a satisfação
da
neurose
mais
arquitetada
da
sua
expectativa

pra você
isso é
amor

e um dia
eu quis
resolver
suas
ânsias
afetivas

mas
no entanto
eu
não duro
tanto
tempo
no
escuro

e nesse
não
vai
não
vem
ninguém
satisfaz
ninguém

rima subentendida

quanto tempo faz
que a gente
não ouve
juntos
Vinícius

quanto tempo jaz
que vírgula
nem ponto
mais

de todos
os meus
amores
errantes
você
foi
quem mais
me acertou

e eu
finjo
que carrego
romance
mas
de fato
e
de fardo
só carrego
você

nossa dança

você é tão
convincente
na dor
parece que dubla
as próprias ideias
quando se esforça
para não se desfigurar
quando a lágrima
inunda a face
e meu sadismo
se torna
pleno
ao beijar seus lábios
ressecados
para sentir
o gosto de sal
antes
de pedir
que você vá
para
sempre
deixando
a porta
aberta
as luzes
acesas
e a corda
deliciosamente
pendurada
com seu
eterno
silêncio

na clínica (flores do mal)

o médico cocainômano
com sua barba
exacerbada
gritando
CANALHA

o guitarrista
que se apaixonou
por alice in chains
e tentou se matar
comendo
pilhas
palito

o esquizofrênico
amante de erva
que sabe de cabeça
todas as linhas
de ônibus
do Rio
e rouba
sabonetes
para comer
escondido

o famoso
ator
espaçoso
e desequilibrado
com seus dilemas
de autoimagem

o cara que traz
drogas
bem
escondido
nas partes
íntimas
e te
oferece
no quarto
(as drogas e as partes íntimas!)

a pequena
menina
iludida
por um grande
amor
platônico
e por
giletes
socráticas

e eu
um pouco
de todos
e
nada
de
ninguém
vendo poesia
quando
isso
é tudo
o
que
se
tem

menininha difícil

lembro dela
como um olhar
calmamente
embriagado
de interesse
mistério
e melancolia

lembro dela
como quem se perde
e passa por ruas
que já passou
à noite
mas nunca
de dia

lembro dela
como uma música
cujo refrão
eu canto
errado
e fica melhor
do meu
jeito

lembro dela
como uma praia
do litoral sul
que não visito
desde a minha
infância
mas que
ainda
ouço
o batuque
do vento