miles davis

você coloca Miles Davis.na primeira nota o trompete faz você se arrepiar como se antecipasse um orgasmo inesperado ou percebesse a aproximação de espíritos guardiões acoplando nos seus chakras.

você entende a madrugada e suas luzes, sombras e silêncios interrompidos por carros distantes, lanternas perdidas nas paredes e sirenes tresloucadas.

você entende a melodia.

você entende o vazio da xícara de café e a existência cruel do espaço infinito de sua cama entre a fronteira dérmica e sorumbática do seu corpo e o lado oposto incompleto.

você quer dormir.

a melancolia é uma passageira antiga nessa caminhada, mas os sentimentos não se encaixam nos pensamentos.

há sempre algo distante, algo de chuva, algo de gélido, algo não cicatrizado.

você sempre terá Miles Davis.

adeus – into the wild

into the wild(Chris McCandless em 1992, sentado em frente ao ônibus 142 no Alaska, em seu último registro fotográfico antes de morrer, sozinho, “Into the wild”)

o ápice
da minha vida
foi quando
sorrateira
e serenamente
deixei tudo
para trás

isolado do mundo
ninguém foi
testemunha
da minha
tênue
partida
apenas
o próprio
universo

agradeço
pacificamente
pelo silêncio
e memórias

adeus

adeus

ninguém sabe a real tonalidade
de se dizer adeus
ou simplesmente fugir

ninguém sabe de verdade
se estamos nas mãos de Deus
ou se não somos daqui

mas que aperta
a saudade
isso aperta

a casa aberta
e você não entra
por aquela porta

os sonhos
vasectomizados
e expurgados

as lembranças
como fardos
sobrepesados

a Torre
é a pior carta
do tarot de Marselha

representa
meu amor
e minha navalha

e que nada
será
como pretendido

que a nova senzala
é eu ter
me despedido

bukowski v. 2.0

nós que já tentamos
copiar o pássaro azul
do verdadeiro bukowski
e suas letras tão claras
porém tortas e perigosas

ele me inspirou a escrever
como deve ter ocorrido
com muita gente
que dormiu
no vaso

ele me inspirou a apostar
quando estou sóbrio
entre outros vícios
vou de all-in
em jogos
furados

a perda já se acostumou comigo
a dor nem mais dói assim
é como um pouco de vida
para quem se sente
morto ou no fim

a aposta número um eu ganho
dobro então

a aposta número dois eu ganho
dobro então

a aposta número três
me traz a escrever
outra vez

e alguém deve estar ganhando
fazendo a festa por aí

já eu
eu estou sem fundos
e o fundo do poço
cabe mais gente
e cavar mais
é o que
me
salva
das ondas
paradoxais
da metalinguagem
e da neurolinguística
que dá verbo
agressivo
a minha solidão

são noites
em que eu seria abençoado
se pudesse apenas me embriagar
com o fantasma das palavras
do meu querido
velho safado

yopo

avermelha o seu rosto
incendeia seu encosto
balança com este fogo
desconstitui o seu jogo

olha tudo desalentado
não julga o ato fadado
se o descontrole é nosso
de fora sei que eu posso

violeta que me reteve
azul por quem nada vê
cores que colorem você
que não sabe se é o DMT