domingo “no park”

o domingo começa
assim como
o mundo
tem que acabar

o refluxo varonil
tem a acidez
nivelada
pela pizza
gelada

provoco uma briga
em um fórum
acerca
de sons de pássaros
notívagos

revejo
o árbitro de vídeo
dos meus erros
e dos meus ódios

não sai gol
nos meus jogos
apáticos
de palavras

não há mensagens
no meu celular
e analiso
se isso
é bom
ou
desesperador

está sol
e
está
frio

tem morte
e entretenimento
na televisão

e eu penso
de alguma forma
quando foi
que perdi
a vontade
de te
participar
do meu
fim

em cima do piano

eu durmo
com a guarda alta
e o maxilar
teso
e a dúvida
de ser
mais
do
mesmo

todos os dias
abro
contagem
de pontos
para
não virar
presunto

se minha
ânsia
te adula
leia
minha
bula
e evite
tomar
sua dose
homeopática
da minha
presença
patética

eu já
não faço
mais
questão
ter
importância
sou a mão
que o caixão
balança
algo perdido
na mentira
da
infância

diálogos lacanianos

Ela: O que você pensa de mim?
Ele: Xi! Tá buscando aprovação?
Ela: Você acha que eu sou uma pessoa boa?
Ele: Não. Ninguém é.
Ela: Você acha que eu sou uma pessoa ruim?
Ele: Certamente. Todos são.
Ela: E você? É uma pessoa ruim?
Ele: Segundo alguns, o pior. Provavelmente também para você daqui algum tempo.
Ela: E tem algo de errado comigo?
Ele: Você se apaixona por quem se comporta como sua mãe com você.
Ela: Como assim?
Ele: Amor condicionado. Atenção, agressão e indiferença.
Ela: E você?
Ele: Eu me apaixono por você.
Ela: Por algum motivo especial?
Ele: Porque eu respondo as perguntas que você gosta de indagar.
Ela: E quanto tempo isso irá durar?
Ele: Até quando eu te der atenção, agressão e indiferença.
Ela: Então você está no controle?
Ele: Enquanto outro não te der algo mais intenso e abusivo.
Ela: Você é um abusador?
Ele: Todos somos. A natureza das relações é o gozo egoísta. Não existe altruísmo nesta história.
Ela: E o meu prazer é o abuso?
Ele: Liga não. O meu também é.
Ela: Eu abuso de você?
Ele: Sim. Por exemplo, eu detesto responder estas perguntas, mas eu me sujeito a isso porque é a maneira de te manter por perto.
Ela: E se eu parar de te indagar?
Ele: Você vai procurar outra pessoa pra fazer isso.
Ela: E se você parar de responder?
Ele: Eu já faço isso. A minha atenção só tem valor pra você se eu intercalo com momentos de agressão e indiferença.
Ela: Você faz isso por querer?
Ele: Assim como você, eu só quero gozar.

pseudoriso

você maltrata
sua criança
interna
quando
se
orgulha
da
própria
indiferença

eu ainda
tento
arrancar
o band-aid
que
cobre
o escárnio
de não lembrar
os traços
mórbidos
da sua
face

e está
tudo
bem
quando
a dor
de mentir
é menor
que a dor
de não
dormir
e seu
riso
tem
o som
do
matadouro
e a cor
do
açoite

e está
tudo
bem
quando
você
dissimula
um caminho
leve
e
pacífico
enquanto
mastiga
as lâminas
daquilo
que fugiu
da sua mania
de controle
embebidas
no suco
ácido
do fracasso
em ser
feliz