AmarEla

ela não está lá
e eu sinto sua ausência
como se sua entrada
fosse minha grande
expectativa

e ela entra em cena
mas eu não olho
meu foco é míope
e por algum motivo
meu terceiro olho
é minha visão
periférica

ela se movimenta
eu não converso
eu não admito
o incômodo
e todos interagem
mas eu sou
a negação
da negação

ela existe
mas até
meu deus
é ateu
e dissimulo
não acreditar
no que
não vejo

ela e os outros
conversam
riem
fazem as coisas
que a vida demanda
por cura do tédio
e eu sigo quieto
emulando atenção
em qualquer ponto
fora do seu perímetro

ela não me olha
ela não me chama
a ela eu não estou
ou ao menos assim
me convém
o pensamento
de manter ela
como o sol
em perspectiva

não sei quem
ignorou o outro
primeiro
só sei que é
assim
o mérito
do pretérito
do presente

e às vezes
eu coloco
minha própria
existência
em rifa

e ela está lá
e minha
atuação
intensa
na indiferença
acaba sendo
minha
essência

ela
nunca
se torna
você

e o despertador
toca
fascista
e
eu grito
anarquista
para ele
se calar

nasce
mais um
dia
sem sabermos
o porquê

mientras hablamos

eu que já disputei
há tempos
e ventos
não faço
concorrência
para te manter
curiosa
admirada
entretida
e
perdida

e isso
é meu
intangível
viés
inalcançável
desejo
volúvel
perdão
irretratável

assim
infantilmente
breco o ritmo
do poema
quebro o tom
da música
torno minha
ânsia
em
saudades
pênsil
de quando
eu queria
alguém
que
me
desequilibrasse
nos silêncios
das
entrelinhas

encaixe lúdico

ainda resistem os mistérios
nos quebra-cabeças
de peças perdidas
e suicidas
que demonstram
a incompletude
clínica e crônica
do pseudoestrabismo canábico
do tique do TOC
da sobrevivência da bossa
da tropicália orientalizada
do amarelo capricorniano
da mentira necessária
da verdade como ofensa
da ofensa como proteção
do medo de ser só
do temor de ser
sempre
a peça
que não
se encaixa
na minha
frágil
e
pretensiosa
utopia

o nada que me habita

estou tão cansado
que meus pés
não me enxergam
mais

penso em te escrever
para falar que estou
doente
de tão
são

imagino como
era bom
beber
no
teu
gargalo

e me
perco
na conjugação
verbal
por não
ser
mais
pronome
possessivo
pra
ti
por não
ser
mais
Tiago
nem
“Ti”

não
ser
nem
ao menos
“se”

descontinuado

darjeeling tea
vazio
com leite
em uma
tarde
de verão
chuvosa
e
incauta
que procrastina
a própria
indecência
de querer
ser
mais
por
você
por
mim
ou
por
qualquer
momento
insólito
de
finita
plenitude